Durante muito tempo, acreditou-se que a principal função da musculatura era produzir movimento, força e sustentação para o corpo. Hoje, essa visão mudou completamente. A ciência passou a reconhecer o músculo esquelético como um verdadeiro órgão endócrino, capaz de produzir substâncias que se comunicam com diferentes tecidos do organismo, incluindo o cérebro. Tal como alude Lucas Peralles, especialista em comportamento alimentar, essa descoberta revolucionou a compreensão sobre os benefícios da atividade física e mostrou que desenvolver massa muscular vai muito além da estética ou do desempenho esportivo: trata-se de um componente essencial para a saúde metabólica, cognitiva e emocional.
Essa comunicação acontece por meio de moléculas produzidas durante a contração muscular, conhecidas como mioquinas. Elas são liberadas na circulação sanguínea e exercem efeitos em órgãos como fígado, tecido adiposo, pâncreas, coração e cérebro. Compreender essa interação ajuda a mudar a forma como enxergamos a prática de exercícios físicos. O treinamento deixa de ser apenas uma estratégia para gastar calorias e passa a ser um importante estímulo para promover adaptações capazes de proteger o organismo em diferentes fases da vida.
O músculo funciona como um órgão de comunicação
Quando pensamos em hormônios, normalmente lembramos da tireoide, do pâncreas ou das glândulas suprarrenais. Entretanto, estudos mostram que o músculo também produz moléculas sinalizadoras capazes de influenciar o funcionamento de praticamente todo o organismo. Essas substâncias são liberadas principalmente durante a atividade física e desempenham funções importantes na regulação do metabolismo.
As mioquinas participam do controle da inflamação, favorecem a utilização da glicose pelas células, estimulam adaptações cardiovasculares e contribuem para o equilíbrio energético. Essa comunicação explica por que pessoas fisicamente ativas costumam apresentar benefícios que vão muito além do ganho de força ou da melhora da composição corporal. O exercício desencadeia respostas biológicas que alcançam órgãos distantes do músculo, promovendo uma verdadeira integração entre diferentes sistemas do corpo.
O cérebro também responde ao exercício físico
Uma das descobertas mais interessantes dos últimos anos é que algumas mioquinas conseguem influenciar diretamente o funcionamento cerebral. Durante a prática de exercícios, ocorre aumento da produção de substâncias relacionadas à neuroplasticidade, processo responsável pela capacidade do cérebro de criar novas conexões entre os neurônios.
Essas adaptações estão associadas à melhora da memória, da concentração, da aprendizagem e do desempenho cognitivo. Além disso, o exercício estimula a liberação de fatores que favorecem a sobrevivência dos neurônios e podem contribuir para reduzir o risco de doenças neurodegenerativas ao longo do envelhecimento. Conforme evidencia Lucas Peralles, esse é um dos motivos pelos quais a atividade física deve ser encarada como parte importante da promoção da saúde integral e não apenas como uma ferramenta para emagrecer.
Mais músculos significam um metabolismo mais eficiente
A musculatura exerce papel central na saúde metabólica porque representa um dos principais locais de utilização da glicose circulante. Quanto maior a massa muscular e melhor sua qualidade funcional, maior tende a ser a capacidade do organismo de retirar glicose do sangue e utilizá-la como fonte de energia, favorecendo o controle da glicemia e aumentando a sensibilidade à insulina.

De maneira adicional, o músculo participa ativamente do gasto energético diário. Mesmo em repouso, ele necessita de energia para manter suas funções básicas, tornando-se um importante aliado na manutenção da composição corporal. Esse conjunto de adaptações ajuda a explicar por que preservar ou aumentar a massa muscular está associado à redução do risco de diabetes tipo 2, síndrome metabólica e outras doenças cardiometabólicas.
O exercício reduz inflamações que afetam todo o organismo
Outro benefício importante dessa comunicação entre músculo e cérebro está relacionado ao controle da inflamação crônica de baixo grau. Esse tipo de inflamação, frequentemente associado ao excesso de gordura corporal, sedentarismo e alimentação inadequada, participa do desenvolvimento de diversas doenças crônicas, incluindo diabetes, doenças cardiovasculares e alterações neurodegenerativas.
Sendo um nutricionista esportivo, Lucas Peralles reforça que, durante o exercício regular, diversas mioquinas exercem efeito anti-inflamatório, ajudando a modular a resposta imunológica e reduzindo processos inflamatórios persistentes. Esse mecanismo contribui para melhorar o funcionamento do metabolismo e também influencia positivamente o cérebro, já que processos inflamatórios crônicos estão relacionados à piora da cognição e ao aumento do risco de depressão e outras alterações emocionais.
O sedentarismo interrompe esse diálogo biológico
Se a contração muscular desencadeia uma série de sinais benéficos para o organismo, a falta de movimento produz o efeito oposto. O sedentarismo reduz a produção de mioquinas, favorece a perda gradual de massa muscular, diminui a sensibilidade à insulina e contribui para o aumento dos processos inflamatórios. Com o passar dos anos, essas alterações podem comprometer tanto a saúde metabólica quanto o funcionamento cerebral.
Esse processo torna-se ainda mais relevante com o envelhecimento. A perda progressiva de massa muscular, conhecida como sarcopenia, não está relacionada apenas à redução da força física. Ela também pode afetar o metabolismo, aumentar o risco de doenças crônicas e reduzir a capacidade funcional. Por isso, preservar a musculatura ao longo da vida representa uma estratégia importante para manter a autonomia, a qualidade de vida e a saúde global.
Cuidar dos músculos é cuidar do organismo como um todo
Os avanços da ciência mostram que a musculatura desempenha funções muito mais amplas do que imaginávamos. Ela participa da comunicação entre diferentes órgãos, influencia o metabolismo, protege o cérebro e contribui para manter o equilíbrio fisiológico do organismo. Essa visão amplia o papel da atividade física dentro da promoção da saúde e reforça que desenvolver músculos não deve ser encarado apenas como um objetivo estético.
Como transmite Lucas Peralles, compreender esse diálogo entre músculo e cérebro ajuda a construir uma relação mais inteligente com o treinamento e com a alimentação. O foco deixa de ser apenas o resultado visível no espelho e passa a incluir adaptações metabólicas capazes de produzir benefícios duradouros para a saúde. Afinal, cada sessão de exercício representa muito mais do que um gasto de energia: é um estímulo para que o organismo fortaleça mecanismos que protegem o corpo e a mente ao longo da vida.
