Uma paciente busca uma segunda opinião depois de um resultado que a deixou insegura e recebe de volta um laudo que não bate exatamente com o primeiro. A reação mais comum é o susto: alguém errou. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues explica que essa cena se repete com frequência maior do que se imagina, e que ela tem nome dentro da literatura científica: variabilidade interobservador, um fenômeno estudado, medido e, até certo ponto, esperado dentro da interpretação de qualquer exame de imagem.
Pesquisas que compararam laudos de diferentes radiologistas diante do mesmo achado mamográfico encontraram concordância apenas moderada em características como contornos e margens de um nódulo, com índices variando bastante conforme o detalhe avaliado. Isso não significa que a mamografia seja um exame pouco confiável, mas que sua interpretação envolve uma camada humana de julgamento visual que, mesmo entre profissionais igualmente qualificados, pode gerar pequenas divergências. Entender de onde vem essa diferença ajuda a saber como reagir quando ela aparece.
Por que dois profissionais bem treinados enxergam a mesma imagem de formas diferentes?
Interpretar uma mamografia não é comparar a imagem a um gabarito fixo, mas reconhecer padrões visuais que variam em nitidez, tamanho e contexto, um processo que depende de treinamento, repertório acumulado ao longo da carreira e também de decisões de julgamento diante de achados que ficam exatamente na fronteira entre normal e suspeito. Foi justamente nessa zona de fronteira que estudos encontraram as maiores divergências, com concordância baixa em certos tipos de contorno e moderada em outros aspectos do mesmo nódulo.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, esse tipo de variação acompanha qualquer especialidade médica que dependa de interpretação visual, da patologia à dermatologia, e não é uma fragilidade exclusiva da radiologia mamária. Para ele, o problema não está na existência dessa diferença, mas em garantir que ela permaneça pequena o suficiente para não comprometer a segurança da paciente, e isso é justamente o que ferramentas de padronização tentam resolver.
Para que serve, então, o sistema BI-RADS, se ele não elimina essa divergência?
O BI-RADS nasceu exatamente para reduzir esse problema, criando uma linguagem comum entre radiologistas e substituindo descrições soltas por categorias padronizadas, que orientam de forma objetiva a conduta a seguir. Ainda assim, mesmo com esse vocabulário comum, dois profissionais podem classificar a densidade da mesma mama em categorias vizinhas, ou interpretar de forma levemente diferente a margem de um nódulo, porque a linguagem padronizada não elimina o julgamento visual por trás dela.

Ou seja, o Dr. Vinicius Rodrigues reitera que isso não torna o BI-RADS menos valioso, apenas realista quanto ao que consegue resolver: sem ele, a divergência entre laudos seria consideravelmente maior, já que cada radiologista descreveria achados com suas próprias palavras, dificultando qualquer comparação entre serviços ou ao longo do tempo. O sistema reduz o ruído, mas não apaga completamente a subjetividade humana envolvida na leitura.
Existe alguma forma de reduzir ainda mais essa diferença entre profissionais?
Sim, e os resultados já são conhecidos: um estudo que testou sistemas de auxílio computadorizado durante a leitura de mamografias com microcalcificações encontrou redução de 46% na variação de acurácia entre os radiologistas avaliados, além de aumento expressivo na concordância sobre a categoria final atribuída ao mesmo achado. Ferramentas mais recentes de inteligência artificial seguem essa mesma lógica, funcionando como um segundo parâmetro que ajuda o profissional a calibrar sua própria decisão.
Para o ex-secretário de Saúde, Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, investir nesse tipo de tecnologia deveria ser encarado como parte da estratégia de qualidade de qualquer programa de rastreamento, já que reduzir divergência entre radiologistas significa, na prática, menos confusão para a paciente e mais consistência nos critérios que definem se um achado precisa ou não de investigação adicional.
Diante de laudos diferentes, o que uma paciente deveria realmente fazer?
A pior escolha é simplesmente ficar com o laudo que soa mais tranquilizador e ignorar o outro. O caminho mais seguro é buscar uma terceira avaliação, de preferência com um especialista dedicado à imagem mamária, ou pedir que os dois radiologistas envolvidos discutam diretamente o ponto de divergência entre si. Na maioria das vezes, esse tipo de conflito se resolve com clareza assim que revisado por alguém com experiência concentrada nessa subárea específica da radiologia.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que essa informação não deveria abalar a confiança de ninguém na mamografia como ferramenta de rastreamento, mas sim mudar a forma como se interpreta uma divergência entre laudos: não como prova de erro, e sim como parte natural de um processo que envolve julgamento humano, e que por isso mesmo continua se beneficiando de segunda opinião sempre que a dúvida for relevante.
