Garantir o abastecimento de água para toda a população brasileira é um dos maiores desafios da infraestrutura nacional, e profissionais como o engenheiro Odair José Mannrich têm sua atuação diretamente ligada às complexidades técnicas que esse problema envolve. Apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, cerca de 33 milhões de brasileiros ainda não têm acesso regular à água tratada, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. O número revela que o problema não é apenas de quantidade, mas de distribuição, gestão e capacidade técnica para manter sistemas que já existem funcionando de forma eficiente.
Ao longo deste artigo, você vai entender por que o abastecimento de água ainda falha, quais são os pontos críticos do sistema e o que precisa mudar para que essa realidade se transforme.
Por que falta água mesmo onde há infraestrutura instalada?
Um dos paradoxos mais evidentes do setor hídrico brasileiro é a coexistência de regiões com infraestrutura instalada e com falta de água na torneira. A explicação passa por um conjunto de fatores que raramente aparecem nas discussões públicas: perdas na distribuição, sistemas subdimensionados, falta de manutenção preventiva e ausência de monitoramento eficiente.
O índice de perdas de água no Brasil é alarmante. Em média, cerca de 40% de toda a água tratada e distribuída no país não chega ao consumidor final, seja por vazamentos nas redes, ligações irregulares ou falhas operacionais. Em alguns municípios, esse número ultrapassa 60%. Para efeito de comparação, países com sistemas bem geridos operam com perdas abaixo de 10%.
Conforme aponta o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, reduzir perdas nas redes de distribuição é uma das intervenções com melhor custo-benefício dentro do setor de saneamento. Antes de expandir a captação, é preciso garantir que a água já produzida chegue a quem precisa.
Os erros mais comuns no planejamento de sistemas de abastecimento
Planejar um sistema de abastecimento de água envolve variáveis que vão muito além da instalação de tubulações e estações de tratamento. Entre os erros mais frequentes no setor estão o subdimensionamento das redes em função do crescimento urbano não previsto, a escolha de tecnologias inadequadas para o perfil da fonte hídrica local e a falta de integração entre os projetos de abastecimento e os planos diretores municipais.
Outro equívoco comum é ignorar a qualidade da água bruta disponível na região antes de definir o tipo de tratamento. Fontes com alta turbidez, contaminação por agrotóxicos ou presença de metais pesados exigem processos mais complexos e custosos. Quando esse diagnóstico não é feito com rigor técnico, o resultado pode ser uma estação de tratamento incapaz de entregar água dentro dos padrões de potabilidade exigidos pela legislação.
Para o engenheiro Odair José Mannrich, a fase de diagnóstico é tão importante quanto a execução. Um projeto bem fundamentado tecnicamente tem muito mais chances de se tornar um sistema sustentável do que uma solução apressada, por mais moderna que seja a tecnologia utilizada.
Mudanças climáticas e o impacto direto na segurança hídrica
As alterações no clima já deixaram de ser uma ameaça futura para o abastecimento de água e se tornaram uma realidade operacional. Eventos extremos, como secas prolongadas, chuvas intensas seguidas de estiagem e o assoreamento acelerado de represas e mananciais, estão afetando diretamente a capacidade dos sistemas de abastecimento em diversas regiões do Brasil.

A crise hídrica que atingiu o Sudeste entre 2014 e 2015 expôs a fragilidade de sistemas que dependiam de poucos mananciais e não tinham alternativas de contingência. Desde então, o debate sobre diversificação de fontes, reúso de água e construção de reservatórios estratégicos ganhou espaço, mas a implementação ainda avança de forma lenta e desigual entre os estados.
Segundo Odair José Mannrich, a engenharia ambiental tem papel estratégico nesse contexto, especialmente no desenvolvimento de soluções que considerem cenários climáticos adversos já na fase de projeto. Sistemas resilientes precisam ser projetados para funcionar mesmo sob condições extremas.
Inovação tecnológica no abastecimento: o que já está sendo aplicado
O setor de abastecimento de água começa a incorporar soluções tecnológicas que aumentam a eficiência operacional e reduzem desperdícios. Sensores de pressão instalados nas redes permitem identificar vazamentos em tempo real, antes que causem danos maiores. Sistemas de telemetria automatizam a leitura de hidrômetros e facilitam a detecção de consumo irregular. Inteligência artificial já é usada por algumas companhias para prever demanda e otimizar a operação das estações de tratamento.
O reúso de água para fins não potáveis, como irrigação e uso industrial, também avança como estratégia para reduzir a pressão sobre os mananciais. Em regiões com escassez hídrica estrutural, essa alternativa deixa de ser opcional e passa a ser essencial para garantir o equilíbrio entre oferta e demanda.
Conforme destaca o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, a adoção de tecnologia no setor precisa ser orientada por critérios técnicos claros e adaptada à realidade de cada sistema, levando em conta capacidade operacional, porte do município e perfil das fontes disponíveis.
Abastecimento de água e o desafio de chegar onde o mercado não chega
Zonas rurais, comunidades ribeirinhas e periferias urbanas concentram boa parte do déficit hídrico brasileiro. Nesses territórios, a solução não passa necessariamente por grandes sistemas centralizados. Tecnologias descentralizadas, como sistemas de captação de água da chuva, poços artesianos com tratamento adequado e pequenas estações compactas de purificação, têm se mostrado alternativas viáveis e de menor custo quando bem dimensionadas.
Na visão de Odair José Mannrich, o abastecimento universal de água exige que engenheiros e gestores públicos ampliem o repertório de soluções disponíveis, reconhecendo que não existe uma resposta única para realidades tão distintas quanto as do Brasil. O que funciona em uma capital metropolitana raramente pode ser replicado sem adaptações em um município de cinco mil habitantes no interior do Nordeste.
Quando a água chega, o trabalho técnico está apenas começando
Garantir que a água chegue à torneira é apenas uma parte do desafio. Manter a qualidade ao longo de toda a rede de distribuição, assegurar pressão adequada em diferentes pontos do sistema, monitorar parâmetros de potabilidade de forma contínua e treinar equipes para responder a falhas operacionais são tarefas que exigem gestão técnica permanente.
O abastecimento de água de qualidade não é um projeto com data de entrega. É um serviço que precisa funcionar todos os dias, para todas as pessoas, independentemente da estação do ano ou das condições climáticas. Por fim, alcançar esse padrão no Brasil ainda exige muito investimento, planejamento e, sobretudo, engenharia bem aplicada.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
